Ela olhou diretamente nos olhos dele através da cafeteria
lotada. trocaram um sorriso e ele caminhou até ela. Dentre as coisas que ele
reparou, listo as seguintes:
Os olhos dela estavam pesados, em uma mistura de noites em
claro e excesso de maquiagem.
Ela tinha manchas de tinta de cabelo no pescoço e nas mãos.
Suas mãos tremeram ao soltar o café.
- Com licença. Sou Julian Fontanari, repórter do Journal
of....
- Deixe-me interrompe-lo neste exato momento. – ela
descruzou as longas pernas e inclinou-se sobre a pequena mesa. Nola Jones, era
o nome dela. Um novo sucesso da televisão, envolvida em tantos escândalos
quanto se pode nomear.– Não estou disposta a conceder uma entrevista, os
rumores são falsos.
Ela voltou a escorar as costas na cadeira, as mãos seguravam
o café contra o peito.
- Você está bem? – ele perguntou, puxando uma cadeira para
sentar-se na frente dela.
- Perdão, o que disse? – ela ergueu ambas sobrancelhas.
- Perguntei se você está bem.
- Extra-oficialmente falando? – tomou um gole de café – Não
é da sua maldita conta.
- E se eu dissesse que... meus propósitos, meus propósitos
são nobres, srta.
- Eu diria que você é um tremendo mentiroso.
Uma mulher que ouvia a conversa de soslaio deu uma risadinha
a este ultimo comentário. O jovem jornalista ficou ainda mais nervoso. Tirou um
gravador do bolso e colocou sobre a mesa:
- Alguem já deu-lhe a oportunidade de contar toda a sua
história? Se eu prometesse contar todos os detalhes, tudo que você me disser,
cada virgula. E assegurar, sob minha responsabilidade, que cada detalhe escrito
será verdade absoluta?
- Já. Não estou interessada. Pague meu café.
Ela retirou-se da cafeteria, acenando com a cabeça para o
caixa. O jornalista seguiu-a correndo, deixou algum dinheiro amassado sobre a
mesa. Debaixo da luz forte do sol, em um
meio dia escaldante de verão, o jornalista reparou novas coisas sobre a estrela
que o levaria ao auge. São elas:
Seu vestido era tão transparente que era possível ver a sua
pele arrepiar-se.
Suas unhas estavam roídas até a carne aparecer.
Existia um brilho de curiosidade nos olhos dela.
- Posso oferecer-lhe uma carona. – Nola disse. – Mas apenas
isso.
Ele correu na direção dela, cada passo era irritantemente
ruidoso. Caminharam em silencio até o Prius, ele abriu a porta para que ela
entrasse e então correu para entrar antes que Nola mudasse de idéia. Ela
acendeu um cigarro e apagou-o no painel do carro, sem leva-lo a boca antes:
- As vezes esqueço que estou tentando parar. Quer anotar?
Que estou tentando parar de fumar?
Julian correu os dedos pelas folhas do seu caderninho preto
antes de anotar.
- Você, sinceramente, anotou isso? O que espera conseguir, jornalista?
- Definitivamente, não uma entrevista. Você já deixou claro.
- E o que mais eu teria a oferecer?
- Companhia.
- Apenas companhia?
Ela inclinou-se sobre ele, arrancou o caderno das suas mãos
e jogou pela janela. Ligou o carro depois de três tentativas e pisou no
acelerador como se sua vida dependesse disso. Atravessaram a avenida
movimentada e pegaram a estrada para a serra. Passaram-se alguns minutos,
passaram por casas, passaram. Os freios falharam por uma fração de segundo e
Nola estacionou perigosamente em frente a um caminho de terra. Uma casa branca
se erguia imperiosa, mostrando ter desafiado os anos com sucesso.
- Você mora aqui?
- Não. Em Londres. 221B Baker Street.
- Mentirosa! – ele exclamou.
- Verdade, divido o apartamento com Sherlock Homes. Sem
perguntas, você disse.
Ela sentiu as lágrimas se
acumularam sob seus olhos. Julian tirou o cinto e abraçou-a inesperadamente:
- Sinto muito. Por todos nós.
Nola desvencilhou-se do abraço,
tirou o cinto e apoiou o corpo na porta. Seu indicador puxou o trinco e ela
deixou-se cair. Ficou deitada no chão, o calor da rua machucava sua pele:
- Devia sentir.
Ficou em posição fetal por alguns
segundos, Julian havia ajoelhado-se ao lado dela, olhava-a com pena. A mente da garota se
embaralhava e zunia em um infinito de pensamentos mal formulados, ela fechou os
olhos com força e esticou a mão para alcançar a dele.
Julian segurou o braço que ela
havia alcançado, correu os dedos por ele até chagar a cintura e com ambas as
mão puxou Nola até o seu peito. Ela aninhou-se no colo do rapaz, como uma
criança, e ficou respirando ofegante. Pela primeira vez desde que a vira
pessoalmente ele não se sentiu excitado por ela, mas sim atraído. A
fragilidade, sensibilidade e dor humano o comoviam. Observar uma beldade como
Nola sair da sua impecável pose de rainha do gelo para se deixar abraçar era
uma das coisas mais lindas que ele já havia visto.
O calor havia amenizado, mas suas roupas
estavam encharcadas de suor. Nola cobriu
o rosto com as mãos, mas não escondida lágrimas ou maquiagem borrada. Não havia
lagrimas ou maquiagem borrada, só uma expressão de sofrimento estampada em seu
rosto. Seus lábios roçavam levemente o ombro do rapaz.
- Solidão. – a voz dela saiu
rouca. – É isso que você vê em mim? Por isso é tão bonzinho?
- Não. É por que acho que posso
te comer ou conseguir uma entrevista.
- Voce é rude. – ela exclamou.
- Sou sincero
-
Onde você quer chegar, jornalista? No topo da carreira? Ou prefere ficar
encima de mim? Temos que tomar decisões.
Por um segundo Julian se pegou
pensando se queria mesmo a verdade. Para que descobrir o segredo? Um show de
mágica é melhor quando somos fielmente iludidos. A beleza dela era o ponto de
distração, quando você parasse de olhar para o mágico com o coelho e a cartola,
só para poder admirá-la, o coelho sumiria. E quem quer saber do coelho? Meu
deus, olhem para ela!
Tres coisas que ele só havia
percebido naquele momento:
Ela tinha uma tatuagem no
interior da coxa.
Com os cabelos bagunçados, ela
era a mulher mais linda do mundo.
Ela não queria viver por muito
mais tempo.
Isso significava que ele teria de conseguir a
história dela rápido.
- Se você me permite perguntar...
– ele pigarreou – O que te fez mudar de idéia?
- Não sei, jornalista.
- Mas, se tivesse de adivinhar um
motivo...
- Bem – ela sorriu – Você é
atraente.
Ele sentiu o ego inflar e as
bochechas corarem. Não era uma garota qualquer que estava dizendo-lhe isso, era
uma das mulheres mais sexys e influentes de todo o mundo. Uma garota popular,
inteligente, atraente, escolhendo ele, entre todos os outros.
Ela começou a levantar-se
devagar, agarrada a maçaneta do carro.
Ele pegou as malas dela, a bolsa, as chaves. Levou tudo para dentro, o
carro ficou mal estacionado na entrada. Antes de fechar a porta, Nola olhou ao
redor. Respirou fundo o cheiro das arvores e da terra molhada. Gostava disso.
Uma van se aproximava ao longe, temendo ser mais repórteres e jornalistas, a
garota entrou e trancou a porta, girando três vezes.
Julian esperava no meio do
cômodo, notou o olhar de pavor estampado no rosto dela.
- Preciso de um banho.- ela
disse, com as mãos tremendo.
Saiu de cima dos saltos e correu
para o segundo andar da casa, agarrada no corrimão. Ele fechou as cortinas, a van estava parada
perto da casa.
Ele ouviu o som da água quando a
garota entrou na banheira. O banheiro estava mais escuro do que o resto da
casa, metade do rosto dela estava na penumbra, Nola franziu o nariz e moveu a
boca de forma engraçada. Alexander não podia vê-la, mas imaginava.
- Nola? – ele bateu na porta uma
vez – Eu preciso voltar para o hotel, nos falamos amanha?
A porta abriu-se, ela estava
agarrada na toalha, os cabelos molhados. Seguem-se as anotações mentais daquele
jornalista:
Ela consegue ser ainda mais
bonita sem maquiagem.
A água escorre pelo corpo dela e
brilha debaixo da luz fraca do corredor.
Eu não posso ter uma ereção
agora. Seria antiético. Certo?
- Do que você precisa? – ela
perguntou.
- Minhas roupas e minhas
anotações. E preciso dormir um pouco... Comer alguma coisa.
- Mi casa es su casa. Mande
alguém trazer as suas coisas e a cozinha é logo ali.
Ela apontou para o andar de
baixo, a toalha escorregou um pouco, deixando a mostra boa parte dos seus
seios. Julian não conseguiu desviar o olhar.
- Ou... – ela começou a falar, a
toalha caiu no chão – Podemos aproveitar o tempo de maneira diferente.
Julian ficou olhando para ela, a
boca aberta, nenhuma palavra conseguia ser formulada na sua mente. Nola havia
decidido o que queria no momento em que viu ele pela primeira vez. O fato de
ser jornalista era só um contratempo. Ela podia ter o que quisesse, ela ERA
Nola Jones, pelo amor de Deus! O mundo curvasse aos seus pés.
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