quarta-feira, 27 de março de 2013

Viciada


As nuvens variavam em tons de rosa e lilás enquanto rodopiavam a sua volta. O frescor mentolado da fumaça agarrou-se ao corpo da garota como se pequenos lábios soprassem-lhe a pele macia. Estrelas azuis começaram a piscar na sua frente, passaram a ser roxas e então vermelhas, foi aí que uma imensidão de cores brilhantes explodiu. Era como se ela flutuasse em um universo e então, subitamente, passasse a fazer parte dele. As estrelinhas grudavam em suas mãos e rosto. Aproximavam-se cada vez mais, de todas as direções. Ela tinha o corpo completamente coberto de estrelas. Seus pés flutuavam em um vazio infinito. Uma platéia de planetas a aplaudia de pé, reverenciavam a sua magnitude. Ela girou e girou e girou até pousar delicadamente em uma superfície macia. A terra abraçava os seus pés. A constelação sussurrava seu nome ao longe e a escuridão começou a abraçá-la. Nunca se sentira tão bem, tão confortável e feliz.  Então, um clarão de luz branca a cegou. Tudo era eternamente branco e dolorido. O chão de concreto machucava as suas costas. Passos e gritos ecoavam pelos corredores.
Arrastada violentamente à realidade, gritou por Joshua. Ao redor havia fogo e fumaça cinza, o alarme de incêndio anunciava que o prédio teria de ser evacuado imediatamente. Parecia possível ouvir o som de ossos sendo quebrados na correria para fugir do local. Não havia mais estrelas ou brilho cósmico, era tudo fumaça, barulho e dor. A sala estava vazia e vários objetos,  quebrados. Todos haviam corrido por suas vidas e deixado ela para morrer.
Ergueu-se com dificuldade usando a cadeira como apoio. As pernas ainda estavam bambas e era difícil enxergar através da fumaça. A porta se confundia na escuridão, o espaço a sua volta teve que ser tateado para que ela encontra-se a saída. Em algum momento ela foi erguida no corredor, mas não conseguia se lembrar de ter caído. Uma mulher chorava copiosamente contra a parede, agarrada ao cadáver coberto de fuligem de um bebê. As vigas do prédio despencavam sobre as pessoas. Todos gritavam. Uma sirene se aproximava ao longe.
Entre a fúria e a dor, ela enxergou Joshua curvado poucos metros à frente. Ele não se movia, apenas encarava o chão. Ele pressionava uma ferida com a mão, tentando estancar o sangue. Ela aproximou-se do rapaz e ajudou-o a caminhar até as escadas. Uma criança agarrou a sua perna, implorando por ajuda. Uma viga cruzava uma das pernas da menininha. Sangue escorria pela boca de Joshua e sujava o cabelo da criança em prantos, o peso dele estava quase impossível de carregar. Ela decidiu-se pela menina.
Tirou o seu colar de dentro da camisa e amarrou-o na coxa da garota, acima do ferimento. Com o laser, cortou a perna fora. Muito sangue escorreu antes que os nano robôs do seu laser fizessem o trabalho de estancar o corte. Não duraria muito. Ela jogou a criança sobre o ombro e correu escadaria abaixo, sem se atrever a olhar para Joshua uma última vez.
Não parou de correr até que alcançasse o fim do quarteirão onde duas ambulâncias estavam estacionadas e pedindo por mais ajuda. Os bombeiros ainda não haviam chegado, mas a policia já barrava os sobreviventes para inquérito, apesar do perigo de explosão no local.
Alguns paramédicos correram ao auxilio dela, tirando a menina das suas mãos. A garotinha gritou e debateu-se, não querendo soltar a mão da sua salvadora. Com algum esforço foram separadas. Um homem balançava uma lanterna na frente do rosto dela, enquanto a menina era carregada para longe:
- Você vai ficar bem. Qual o seu nome?
A luz incomodava seus olhos. Ela fixou o olhar nos olhos escuros por detrás do brilho fixo.
- Olha para a luz. – a voz ordenou, e depois, em um tom mais gentil: – Qual o seu nome?
Dois policiais caminhavam na direção deles. As pernas não responderam ao comando de fugir. Os homens se aproximavam dela. Quando agarraram-na pelo ombro, ela começou a debater-se  e gritar. Caia, sangrava e era jogada longe com violência. Levantava suja com o próprio sangue e voltava a chutar e debater-se. O paramédico não havia se movido, a lanterna ainda apontava para ela. Ele percebeu que ao ser segurada pelos policiais ela não estava usando toda a força. A tensão nos seus músculos era fraca durante a luta. Ela parecia querer ser derrotada.
Derrubaram-na, finalmente, e algemaram suas mãos. O policial maior montou sobre as costas dela e bateu a cabeça da garota contra o chão até que ela ficasse inconsciente. A luz da lanterna ainda iluminava o seu rosto.
A menina estava bem.
Ela fechou os olhos sorrindo, e então dentro dela alguma coisa simplesmente parou.

Um comentário:

  1. Nada como o imenso impacto da realidade para nos acordar, ou... fazer dormir...

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