As nuvens variavam em tons de rosa e lilás enquanto
rodopiavam a sua volta. O frescor mentolado da fumaça agarrou-se ao corpo da
garota como se pequenos lábios soprassem-lhe a pele macia. Estrelas azuis
começaram a piscar na sua frente, passaram a ser roxas e então vermelhas, foi
aí que uma imensidão de cores brilhantes explodiu. Era como se ela flutuasse em
um universo e então, subitamente, passasse a fazer parte dele. As estrelinhas
grudavam em suas mãos e rosto. Aproximavam-se cada vez mais, de todas as direções.
Ela tinha o corpo completamente coberto de estrelas. Seus pés flutuavam em um
vazio infinito. Uma platéia de planetas a aplaudia de pé, reverenciavam a sua
magnitude. Ela girou e girou e girou até pousar delicadamente em uma superfície
macia. A terra abraçava os seus pés. A constelação sussurrava seu nome ao longe
e a escuridão começou a abraçá-la. Nunca se sentira tão bem, tão confortável e
feliz. Então, um clarão de luz branca a
cegou. Tudo era eternamente branco e dolorido. O chão de concreto machucava as
suas costas. Passos e gritos ecoavam pelos corredores.
Arrastada violentamente à realidade, gritou por Joshua. Ao
redor havia fogo e fumaça cinza, o alarme de incêndio anunciava que o prédio
teria de ser evacuado imediatamente. Parecia possível ouvir o som de ossos
sendo quebrados na correria para fugir do local. Não havia mais estrelas ou
brilho cósmico, era tudo fumaça, barulho e dor. A sala estava vazia e vários
objetos, quebrados. Todos haviam corrido
por suas vidas e deixado ela para morrer.
Ergueu-se com dificuldade usando a cadeira como apoio. As
pernas ainda estavam bambas e era difícil enxergar através da fumaça. A porta
se confundia na escuridão, o espaço a sua volta teve que ser tateado para que
ela encontra-se a saída. Em algum momento ela foi erguida no corredor, mas não
conseguia se lembrar de ter caído. Uma mulher chorava copiosamente contra a
parede, agarrada ao cadáver coberto de fuligem de um bebê. As vigas do prédio
despencavam sobre as pessoas. Todos gritavam. Uma sirene se aproximava ao
longe.
Entre a fúria e a dor, ela enxergou Joshua curvado poucos
metros à frente. Ele não se movia, apenas encarava o chão. Ele pressionava uma
ferida com a mão, tentando estancar o sangue. Ela aproximou-se do rapaz e
ajudou-o a caminhar até as escadas. Uma criança agarrou a sua perna, implorando
por ajuda. Uma viga cruzava uma das pernas da menininha. Sangue escorria pela
boca de Joshua e sujava o cabelo da criança em prantos, o peso dele estava
quase impossível de carregar. Ela decidiu-se pela menina.
Tirou o seu colar de dentro da camisa e amarrou-o na coxa da
garota, acima do ferimento. Com o laser, cortou a perna fora. Muito sangue
escorreu antes que os nano robôs do seu laser fizessem o trabalho de estancar o
corte. Não duraria muito. Ela jogou a criança sobre o ombro e correu escadaria
abaixo, sem se atrever a olhar para Joshua uma última vez.
Não parou de correr até que alcançasse o fim do quarteirão
onde duas ambulâncias estavam estacionadas e pedindo por mais ajuda. Os
bombeiros ainda não haviam chegado, mas a policia já barrava os sobreviventes
para inquérito, apesar do perigo de explosão no local.
Alguns paramédicos correram ao auxilio dela, tirando a
menina das suas mãos. A garotinha gritou e debateu-se, não querendo soltar a
mão da sua salvadora. Com algum esforço foram separadas. Um homem balançava uma
lanterna na frente do rosto dela, enquanto a menina era carregada para longe:
- Você vai ficar bem. Qual o seu nome?
A luz incomodava seus olhos. Ela fixou o olhar nos olhos
escuros por detrás do brilho fixo.
- Olha para a luz. – a voz ordenou, e depois, em um tom mais
gentil: – Qual o seu nome?
Dois policiais caminhavam na direção deles. As pernas não
responderam ao comando de fugir. Os homens se aproximavam dela. Quando
agarraram-na pelo ombro, ela começou a debater-se e gritar. Caia, sangrava e era jogada longe
com violência. Levantava suja com o próprio sangue e voltava a chutar e
debater-se. O paramédico não havia se movido, a lanterna ainda apontava para
ela. Ele percebeu que ao ser segurada pelos policiais ela não estava usando
toda a força. A tensão nos seus músculos era fraca durante a luta. Ela parecia
querer ser derrotada.
Derrubaram-na, finalmente, e algemaram suas mãos. O policial
maior montou sobre as costas dela e bateu a cabeça da garota contra o chão até
que ela ficasse inconsciente. A luz da lanterna ainda iluminava o seu rosto.
A menina estava bem.
Ela fechou os olhos sorrindo, e então dentro dela alguma coisa simplesmente parou.
Nada como o imenso impacto da realidade para nos acordar, ou... fazer dormir...
ResponderExcluir