Indiferentes
a neve que caia do lado de fora, os convidados da festa giravam pelo salão em
seus trajes caros e com suas mulheres elegantes. Longos vestidos de cetim,
algodão ou seda roçavam ao som das valsas, vinhos desciam pelas gargantas,
risadas ecoavam nas enormes paredes adornadas de lindos detalhes em ouro.
Galhos secos e desnudos pelo tortuoso inverno batiam nas enormes janelas e eram
calados pelo som do violino e do piano. Adoráveis mulheres rodopiavam com
bandejas cobertas de bebidas e rostos cheios de falsos sorrisos, lindas esposas
sorriam com falsa esperança, belos maridos pensavam em outras mulheres, ainda
assim tomando suas próprias nos braços.
O
uivo dos ventos prometia uma grande tempestade.
O
anfitrião observava o chão desaparecer debaixo de uma espessa camada de neve
branca e fria com enorme satisfação, nada no mundo poderia abalar seu humor.
Afastou-se da janela e arrumou a roupa diante do espelho, estava na hora de
aparecer na festa. Deslizou a mascara pelo nariz e deixou-a se ajustar nas
maças do seu rosto pálido. Contemplou sua imagem por mais um momento. Ele era o
grande Lucius Mandatte.
Debruçou-se
no topo da escadaria para observar os convidados. Os homens eram mais discretos
e sutis equilibrando o ambiente com uma cor crua, mascaras negras, brancas, marrons
e cor de vinho, sem grandes exageros ou suspiros. Mulheres, jamais negando sua
natureza caçadora, usavam vestidos longos, armados e exagerados, espartilhos
dolorosos, jóias de ouro e penteados estonteantes. Máscaras por todo lado.
Música e álcool embalando a noite.
-
Senhoras e senhores – a voz cruzou o salão com grande impacto teatral, como
esperado – Bem vindos ao meu humilde baile.
Todos
riram. Atlas, o seu filho mais novo, aproximou-se por trás e passou o braço
sobre o ombro do pai:
-
Estamos, ironicamente, arrecadando fundos para ajudar os... menos afortunados.
Façam suas doações para mitigar a culpa por seus exageros ridiculos.
Lucius
sentiu as bochechas corarem de raiva. Um sinal foi mais do que necessário para
que seus empregados retirassem o garoto do seu alcance. Os convidados sorriam
ainda, mas o ar no salão de baile havia tornado-se pesado. Atlas surgiu do lado
oposto da escadaria, agarrado a um microfone e uma taça de champagne:
- Estou
certo de que nenhum de vocês me conhece – começou a falar, sua voz grave, tinha
uma sinistra melodia que lembrava a riqueza e assassinatos – E conheço a todos
vocês. Não acho justo esta vantagem que tenho.
Todos olhavam para o jovem, incrédulos. Ele passou
a mão pelos cabelos negros e sorriu. Ele havia aberto a caixa de Pandora e
agora observava calmamente a irritação crescente. Atlas sorriu para os rostos
conhecidos e concluiu:
- Bebam vinho, ouçam boa música. Logo a magia
vai cessar, a música vai se calar, a luz desligar, o sol raiar e um dia comum
surgirá. Aproveitem, caros amigos, até o fim. Ele está mais próximo do que
imaginamos.
Um estrondo macabro surgiu de algum lugar não
identificado enquanto Atlas mergulhava no meio da multidão, sempre sorrindo.
Seu pai tentava, com dificuldade, acalmar os ânimos.
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