quinta-feira, 11 de abril de 2013

Bem-vindo

Quando a chuva começou a cair, Will nem ligou. Cruzava a cidade com a precisão cirúrgica que se corta um corpo. Conhecia o caminho e encarava o chão, sempre os mesmos passos. Alguma coisa impediu-o de pegar o onibus aquela noite, talvez um tipo de consciencia interna ou divina, mas isso não mudaria seu apreço pela solidão pacifica que aquela noite proporcionava.
Não conseguia evitar a onda de pensamentos e conclusões que tomavam-lhe o corpo, grudando a sua mente como as roupas grudavam na pele fria.
O ar não era completamente macabro... Algumas ruas adiante seu caminho seria iluminado na movimentada avenida. 
Uma sombra aproximou-se. Com um guarda-chuva em punho, um velho de terno tirou de Will toda a sensação de leveza e liberdade. Fora protegido da chuva, como se dependesse da ajuda de alguem. 
Não pensou, apenas se afastou, rápido, em direção a rua errada. Errou a saída seguinte e parou atrás de uma garota que carregava os sapatos nas mãos.
Seu coração parou de bater. Havia nela uma aura que inspirava finais. Um balançar de ombros que clamava por ele. Esgueirou-se sorrateiramente pelo seu corpo a vontade de cumprir o que seu instinto mandava.
Aquela fome específica era tudo que latejava em sua mente. 
A negação de uma moral era algo que não preocupava-o, naquele momento a moral era aquela. Tudo estava certo, perfeitamente encaixado. A menina batia os pés nas pedras, respingando água em todas as direções. 
Will era silencioso. Um sorriso felino brotou dos seus lábios, apressou a caminhada, mexia no anel sistematicamente. Queimava-lhe a garganta toda aquela convicção.
Agora muito pouco o separava do que tinha de ser feito. Ele sentia uma calma interna ao mesmo tempo em que uma agitação movimentava-lhe o corpo com mais velocidade. 
Sentiu a garganta secar, sua voz sumiu com as gotas de chuva que lavavam seu rosto. O cabelo tapava a face e nada podia protege-lo de si mesmo.
Ela parou de caminhar na frente de uma pequena casa amarela, entao entrou e fechou a porta atrás de si. Will ficou observando por um tempo. Sentia-se fraco por não ter seguido sua intuição. Seria tão fácil passar as mãos em torno do frágil pescoço da garota. Derrubá-la no chão e amarrá-la a mesa. Cortaria a carne, pouco a pouco, sentindo cada deslizar de sangue. Ela iria gritar e implorar. O mais importante, porém, é que ele teria o poder sobre ela. Cada respiração que a garota quisesse dar teria de ser autorizada por ele, os pesadelos dela seriam sobre ele e o momento que passariam juntos.

A porta abriu novamente. A garota surgiu, ainda descalça, no vão da porta. Ela sorriu:
- Você não vem?

Um comentário:

  1. Uma mistura de tensão com euforia... Não se pode descrever o que sentir ao ler essas palavras. Uma mistura de desejo e vontade talvez seja o mais próximo que posso chegar. A vontade do controle o desejo do fazer, tudo ligado, sempre juntos.

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