A sala esta tomada por uma fumaça quente. Sua pele arde com o calor e a roupa colou ao seu corpo. Uma gota de suor escorre pelas suas vértebras de maneira desagradável. Seu peito ofega. O relógio esta parado. Seus sapatos sujos de sangue. Seu cúmplice tira o relógio quebrado das mãos dela e toca seus lábios próximo aos dedos da garota, sustentando-a pelo pulso e por um beijo na mão.
Ela sente suas costelas pressionarem sua pele como se tentassem escapar de dentro dela. Ele se aproxima e posiciona seu corpo contra o dela, uma das mãos sobre os doloridos ossos que tentavam fugir. Como em toda vez que ele se aproximava ela sentiu-se provocada e intimidada. Tinha sempre mil vontades com ele, sonhos que ela não ousaria repetir em voz alta, mas sua tensão era muito maior. Não conseguia mover-se para longe ou para perto quando ele se aproximava demais. Geralmente ficava a admira-lo em um silencio respeitoso, o olhar e os lábios. A maneira de se mover. Os gestos, a risada, a voz... Acima de tudo, o sorriso.
A profundidade que compartilhavam e a alegria a que ele se entregava... Tudo era fantástico na sua visão. Pedia mentalmente que ele a beijasse, mas não o deixava beija-lá. Quase nunca.
Ele manteve a mao pressionando-lhe as costelas. Ficou ali, segurando-a por um tempo até que enfim ela recobra o fôlego.
- Deu?
- Deu. - ela respondeu
E então, tão rápido quanto quando ele chegou, ele se afastou. Tiraram o relógio quebrado da sala.
-Minha vez? - ele perguntou
- Não. - ela sorriu cutucando-o para saber se ele ainda estava ali - É minha vez ainda.
Ele resmungou alguma coisa, um pouco revoltado, mas era mesmo a vez dela. Ele colocou sobre a mesa o saco preto. Ela aproximou o ouvido. Tic tac. Ouviu.
- Machado
Não era uma ordem. Era um pedido. Não tinha a delicadeza de um, mas eles se entendiam.
- Machado, minha cara? Não é um pouco ultrapassado ?
- Machado. - ela repetiu.
Quando tomou o Machado mas mãos, a música já havia recomeçado. The killers, pra variar um pouco seu repertório. Bateu varias e varias vezes.
Ele poderia ter segurado-a pelos ombros, pedir que ela aproveitasse mais o momento, mas viu que o que ela fazia era necessário para ela. Quando ela terminou, o relógio jazia despedaçado sobre a mesa. Ela limpou o sangue que escorrera do seu nariz e olhou para ele:
- O que te impede de ser o próximo relógio?
Ao que ele respondeu:
- sou mais útil vivo.
- sua vez.
- minha vez.
Ela trouxe outro saco preto. O relógio batia dentro do peito da mulher. Seu cúmplice observava. Deixou que a garota tocasse o corpo frágil da mulher sobre a mesa por um tempo. Enfim, pediu:
- Bisturi.
Nenhum comentário:
Postar um comentário