segunda-feira, 1 de abril de 2013

Madrugada


A música tocava baixinho no piano do primeiro andar. Bree tapou os ouvidos com o travesseiro, os olhos azuis abertos prestavam atenção intensa nas sombras assustadoras que contornavam o enorme quarto do terceiro andar. A luz da televisão lembrava a ela os morcegos assustadores dos contos da sua mãe. A batida na porta. Uma vez. Uma faixa de luz pequena veio pela fresta da porta e Liliete entrou. Bree exitou, mas falou com a sombra clara:
- Mamãe?
- Durma.
A voz tão doce e suave quanto o mel. Bree permaneceu deitada, em silêncio absoluto, até que a mãe finalmente saiu deixando a porta entre aberta. Em questão de segundos, as unhas vermelhas começaram uma dança nas teclas do computador. Bree imaginou-se em um dos contos da mãe, voando nas costas de um cavalo alado com um longo vestido verde brilhante. E por um segundo, quase esqueceu que não importa o quão ardentemente ela desejasse, nada daquilo seria real.  O pai parou de tocar o piano e ela ouviu seus passos pesados subindo as escada. O barulho do registro sendo ligado, a água caindo e batendo nas lajotas. Pareceu durar para sempre, até que seu pai finalmente entrou no seu quarto, abriu a janela de vidro e fechou as cortinas brancas que voaram com a brisa da noite.
- Pai? Estou com medo.
- Não tem motivo pra ter medo, feiticeira.
 Ele deixou o quarto e bateu a porta. Veio um minuto de silêncio e, em seguida, os sons sombrios da noite voltaram.  O vento soprou forte as cortinas, os grilos resmungaram na grama molhada e ainda havia movimento de carros na avenida. As respirações do seu pai e dos seus outros irmãos se confundiam com o barulho do ventilador no quarto de Cristian, o irmão mais velho, que ainda não adormecera.
Ainda com os olhos abertos, Bree sussurrou:
- Boa noite mamãe.
E dormiu sem sonhar com nada enquanto a mãe continuava a digitar no computador inexistente daquela casa abandonada.


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