A música tocava
baixinho no piano do primeiro andar. Bree tapou os ouvidos com o travesseiro,
os olhos azuis abertos prestavam atenção intensa nas sombras assustadoras que
contornavam o enorme quarto do terceiro andar. A luz da televisão lembrava a
ela os morcegos assustadores dos contos da sua mãe. A batida na porta. Uma vez.
Uma faixa de luz pequena veio pela fresta da porta e Liliete entrou. Bree
exitou, mas falou com a sombra clara:
- Mamãe?
- Durma.
A voz tão doce e suave
quanto o mel. Bree permaneceu deitada, em silêncio absoluto, até que a mãe
finalmente saiu deixando a porta entre aberta. Em questão de segundos, as unhas
vermelhas começaram uma dança nas teclas do computador. Bree
imaginou-se em um dos contos da mãe, voando nas costas de um cavalo alado com
um longo vestido verde brilhante. E por um segundo, quase esqueceu que não
importa o quão ardentemente ela desejasse, nada daquilo seria real. O pai parou de tocar o piano e ela ouviu seus
passos pesados subindo as escada. O barulho do registro sendo ligado, a água
caindo e batendo nas lajotas. Pareceu durar para sempre, até que seu pai
finalmente entrou no seu quarto, abriu a janela de vidro e fechou as cortinas
brancas que voaram com a brisa da noite.
- Pai? Estou com medo.
- Não tem motivo pra
ter medo, feiticeira.
Ele deixou o quarto e bateu a porta. Veio um
minuto de silêncio e, em seguida, os sons sombrios da noite voltaram. O vento soprou forte as cortinas, os grilos
resmungaram na grama molhada e ainda havia movimento de carros na avenida. As
respirações do seu pai e dos seus outros irmãos se confundiam com o barulho do
ventilador no quarto de Cristian, o irmão mais velho, que ainda não adormecera.
Ainda com os olhos
abertos, Bree sussurrou:
- Boa noite mamãe.
E dormiu sem sonhar
com nada enquanto a mãe continuava a digitar no computador inexistente daquela casa abandonada.

Nenhum comentário:
Postar um comentário